Política: a inesgotável matéria-prima do humor brasileiro

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Nossa política é uma piada

Se um político for pego com dinheiro na cueca ou São Paulo bater um novo recorde de congestionamento, a piada está pronta! Não é preciso esperar pelo dia seguinte para que deboche de todo tipo tome conta da internet e posteriormente, TV, rádio, jornal e revistas. As gráficas do Império também já teriam se encarregado de espalhar a notícia, mas os tweets de hoje tornam quase instantânea a sua propagação. Isso porque o Brasil tem relevante tradição humorística e, coincidência ou não, grande parte dela se deve à chacota feita com políticos – quem não se lembra de Justo Veríssimo, célebre personagem de Chico Anysio que representava um político corrupto com o bordão “Tenho horror a pobre! Quero que pobre se exploda!”?

O brasileiro usa o humor para fazer parte da vida política, protestar e aliviar-se. Para Marcelo Tas, que comanda o programa CQC da TV Bandeirantes, o riso chega a ser uma questão de sobrevivência, usado pelo brasileiro para tentar conviver com os problemas do país. “Vivemos numa realidade dilatada de absurdos, por isso aqui o humor é quase uma necessidade básica. A irreverência é uma arma que nos vacina contra as mesmas respostas de sempre das autoridades. Humor é a lente de aumento da realidade”, afirma o apresentador, que ficou conhecido nos anos 80 pelo personagem Ernesto Varela, um repórter fictício que ironizava personalidades políticas durante a redemocratização.

Segundo Isabel Lustosa, cientista política e historiadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio, política é matéria-prima para o humor porque é tema central na vida dos cidadãos e envolve, em si, uma certa teatralização, o que causa riso. “Politica é produto de propaganda. O político é visto como esperto por ter todo o jogo de sedução desde a eleição”.

Se o humor politico é necessidade básica, a fome de riso vem desde os tempos do Segundo Reinado. Segundo Lustosa, até que D. Pedro II saía ileso das piadas da época, por ter sido favorável à liberdade de imprensa e mantido certa neutralidade entre os Partidos Liberal e Conservador, mas temas como a Guerra do Paraguai, na década de 1860, rejeição à Igreja (1870) e o movimento abolicionista (1880) pautaram importantes humoristas, como Angelo Agostini, fundador dos jornais ilustrados Diabo Coxo e Cabrião e da Revista Illustrada. “Essas publicações satíricas acompanharam os fatos da época e contribuíram com a proclamação da República, como foi o caso da Revista Illustrada, que apoiou o movimento”, diz Lustosa.

O riso de oposição à ditadura

A República Velha (1889-1930) e os primeiros governos de Getúlio Vargas (1930-1937) – durante o Estado Novo (1937-1945), o humor político ficou um pouco mais tímido – também revelaram importantes humoristas. Mas, para Gonçalo Júnior, analista e pesquisador de quadrinhos e artes gráficas, o humor político tem seu auge durante a ditadura militar, principalmente com o semanário O Pasquim (1969), que reunia nomes como Ziraldo, Henfil e Millôr Fernandes. “Essa turma ditava um humor engajado, de resistência, militância, o que chamamos de ‘humor de trincheira’”.

Segundo Gonçalo Júnior, o humor político encerra um ciclo em 1988, com a morte de Henfil, um dos mais importantes cartunistas brasileiros. “Nunca houve um artista tão atuante quanto ele, que levou sua ideologia às últimas consequências e redimensionou as bases do humor político. Era um gênio”, afirma. Laerte, cartunista da Folha de S. Paulo, concorda: “Principalmente até o AI-5, em 1968, a charge brasileira tinha ideologia. Hoje, ela cedeu terreno ao esculacho geral e ‘pronto’. Fala-se dos governos e dos representantes políticos com o mesmo tom com que se fala do BBB”.

Mas, também o riso politicamente incorreto ganhou espaço na Ditadura, com as piadas machistas e preconceituosas de revistas como Garotas e Piadas, O riso e O governador, que circulavam em salões de beleza masculinos. Aí, a garota burra, o corno, o negro, o homossexual, ninguém era poupado. “Como, até a revolução sexual – que, no Brasil, ocorreu no final dos anos 1970 – os salões de beleza não eram unissex, circulavam estas publicações próprias para homens, explorando a figura da mulher seminua. A Garotas e Piadas chegou a imprimir mais de 150 números em mais de 10 séries diferentes de 1964 a 1975″, conta o pesquisador.

Mas quem procurou se distanciar da política e buscar temas ligados ao cotidiano, lançando um novo humor de comportamento, foi Glauco, recentemente assassinado de forma brutal por razões ainda não esclarecidas pela polícia. Ao perceber que a ditadura não retardou apenas a política, mas também os hábitos da sociedade e a revolução sexual, o cartunista produziu um conteúdo diferenciado em suas charges publicadas na Folha a partir de 1981, que abordavam as neuroses da sociedade, drogas, amizade e outros temas que passaram a ditar o humor na abertura política. “Ele teve uma sacada muito boa para a época e inclusive infuenciou a TV, com programas como ‘TV Pirata’, ‘Doris para Maiores’, ‘Casseta & Planeta’ e ‘Armação Ilimitada’”, ressalta Gonçalo Júnior.

Do Brasil Império ao Império do Twitter

Se, nos tempos do Império, o humor priorizava os fatos políticos, hoje, com a internet e as redes sociais, caiu na rede, é peixe! As piadas são instantâneas e, menos engajadas, fazem referência a qualquer celebridade, futebol e outros temas do dia-a-dia. “O brasileiro ri do bordão, mesmo que não o reconheça como tal. A audiência do ‘Zorra Total’, o Seu Creisson falando ‘errádio’ e o Zina repetindo a todo instante ‘Ronaldo’, no ‘Pânico na TV’, não me deixam mentir. Isso sem falar no bordão que não tem forma, como o Rubinho Barrichello que, ao perder corridas toda semana, vira piada pronta de si mesmo”, diz Antonio Tabet, mantenedor do blog humorístico Kibe Loco, que registra 400 mil visitantes por dia e tem quase 300 mil seguidores no Twitter.

Para Marcelo Tas, também um dos usuários mais seguidos, as redes sociais contribuem na medida em que os membros do CQC podem escutar seus telespectadores. “O Twitter inverte a ordem natural da TV broadcast e faz com que nao fiquemos acomodados nas conquistas”.

Mas, segundo Isabel Lustosa, por ter proporcionado volume e velocidade, o Twitter pode trazer também o desgaste do humor. Como o consumo é instantâneo, a piada fica velha rapidamente e é preciso ainda mais criatividade e talento para se sobressair. “É o que a própria televisão sofre. Como tudo é na hora, com o tempo, os personagens se desgastam e podem não produzir mais tanto efeito”, comenta a historiadora.

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